Meus encontros com John Nash

Leia meu relato sobre sua inteligência e humildade

John Nash Forbes Jr. ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1994 por seus estudos em Teoria dos Jogos. Uma das soluções matemáticas desenvolvidas a partir desse trabalho foi batizada de Equilíbrio de Nash. Nash foi interpretado por Russell Crowe no filme Uma Mente Brilhante, vencedor do Oscar de 2002. Tive o prazer de encontrá-lo pessoalmente por duas vezes e faço aqui um breve relato desses encontros.

Primeiro encontro (2008)

Encontrei Nash no congresso Games 2008: Third World Congress of the Game Theory Society, realizado na Kellogg School of Management, na Northwestern University. Na verdade, não foi coincidência. Sempre fui amante de Teoria dos Jogos e, quando li que Nash estaria neste congresso, planejei minhas férias, peguei um avião e lá estava sentado na primeira fileira para ouvi-lo. Voltei e comecei a escrever meu livro sobre o tema, o qual você encontra aqui.

Minha primeira impressão foi ótima. Nash tinha cara de bom velhinho. Naquele ano completava 80 anos: andava devagar, falava pausadamente e em voz muito baixa. Estava vestido com uma roupa levemente amassada e uma camiseta branca por baixo da camisa social.

Circulava sozinho na maior parte do tempo. Não o vi conversando com as “novas autoridades” — os professores de cinquenta e poucos anos que faziam as apresentações. Era, porém, o único “famoso” que, com genuína humildade, entrava em todas as salas e sentava ao lado de qualquer participante, puxando às vezes uma conversa discreta.

Enquanto andava, encarava as pessoas diretamente nos olhos. Depois, sentava sozinho em algum canto e ficava escrevendo. Soube que ele fazia cálculos matemáticos por recomendação do psiquiatra, como forma de se manter ativo e afastado da esquizofrenia que o acometera no passado — e que foi retratada no filme. Nash fez uma pergunta durante a apresentação de um brasileiro do Insper. “Ganhei meu dia”, disse o apresentador. Afinal, Nash era uma celebridade.

Em sua palestra, Nash usou transparências e retroprojetor (ver as fotos) e não PowerPoint e computador. Pediu desculpas pelo improviso. Não entendi nada do que ouvi na palestra; não porque ele falou baixinho, mas porque sua fluência sobre as questões matemáticas estava além do meu alcance. O título da palestra de 45 minutos era “Work on a project to study three­‑person cooperative games using the agencies method”. 

Em sua palestra, usou transparências e retroprojetor — não PowerPoint — e pediu desculpas pelo improviso. Não entendi nada do que ouvi, não porque ele falou baixinho, mas porque sua fluência sobre questões matemáticas estava muito além do meu alcance. O título da palestra de 45 minutos era Work on a Project to Study Three-Person Cooperative Games Using the Agencies Method.

Algumas pessoas se aproximavam com dúvidas, e ele as respondia com solicitude. ão sei o que conversavam — devia ser sobre achar algum equilíbrio em algum jogo matemático. Pensei em puxar conversa, mas não sabia o que perguntar. No fundo, queria saber a opinião dele sobre o filme. Certamente não era uma pergunta original, mas seria interessante ouvi-lo.

Os participantes do congresso se agitavam ao encontrar os demais Prêmios Nobel presentes e muitos entregavam papers diretamente nas mãos dos convidados, como quem entrega um currículo em busca de uma entrevista. Mas Nash era o único com quem o público queria tirar fotos. E o detalhe curioso: as pessoas queriam tirar fotos com Nash, não de Nash. Tietagem à parte, eu também. Foi uma experiência e tanto.

Segundo encontro (2010)

Encontrei-o novamente em julho de 2010, no 2º Brazilian Workshop of the Game Theory Society, na USP, em São Paulo. O evento comemorava o 60º aniversário do conceito do Equilíbrio de Nash — em 1950, Nash escrevera a dissertação que revolucionou a Teoria dos Jogos. Robert Aumann, outro Prêmio Nobel presente, brincou que chamaria o workshop de “Nash Fest”.

Nash estava com 82 anos, um pouco mais frágil, andando ainda mais devagar e falando em voz difícil de acompanhar. Mas continuava com o mesmo jeito de bom velhinho e, principalmente, muito lúcido — deu mais uma palestra daquelas que não consigo entender. Assim como em 2008, passeou por todos os espaços, entrou nas salas e nos auditórios, assistiu às palestras com atenção e fez algumas perguntas.

Um momento especialmente interessante foi a sessão chamada Conversation with John Nash, conduzida pela coordenadora do evento. Ali pudemos observar, mais uma vez, sua simplicidade e sua humildade. A organização exibiu a cena do filme em que Nash e seus amigos estão num bar quando entram as garotas. Segundo o filme, foi naquele momento que Nash teve o insight para escrever sua tese.

Após a cena, a própria organização reconheceu que aquilo não era propriamente um Equilíbrio de Nash e aproveitou para perguntar se ele realmente tivera aquele insight. Ele ficou pensando, balbuciou algo e respondeu mais ou menos assim:

Não… Acho que não tive insight… Difícil de lembrar… Seria o mesmo que perguntar a Thomas Edison como foi o insight para criar a lâmpada. Talvez não tenha tido ou não me lembre.

Seria mais marqueteiro e interessante se ele dissesse que o insight ocorreu no bar, no chuveiro ou embaixo de uma árvore, mesmo que fosse mentira. Mas não; ele preferiu a modéstia. Do mesmo modo, quando perguntado por que escolhera a Matemática e a Teoria dos Jogos, a resposta foi confusa e honesta ao mesmo tempo: gostou de Economia Internacional num curso em Carnegie Mellon (onde fiz meu MBA por dois anos) por causa de um excelente professor russo visitante de Chicago. Depois, passou a se interessar por Engenharia e Química, cogitou fazer Engenharia Química e desistiu, pensou em Inglês e não viu futuro, e então resolveu fazer Matemática. (Simples assim…)

Nash podia dizer essas coisas porque tinha autoridade para tanto. Contribuiu de forma imensa à Teoria dos Jogos com uma teoria que leva seu nome, ganhou o Prêmio Nobel, ficou afastado das pesquisas durante trinta anos por causa da esquizofrenia, recuperou-se, voltou à ativa para dar aulas e participou de congressos internacionais mesmo em idade avançada. E, além de tudo isso, era simpático.

É notável a sua simplicidade. Em uma entrevista para uma rede de TV, uma das perguntas foi: “Se você fosse escolher alguma coisa para ainda conquistar na vida, o que seria?”. Ele respondeu: 

É notável sua simplicidade. Numa entrevista para uma rede de televisão, quando perguntado o que ainda gostaria de conquistar na vida, ele respondeu:

— Bem, apenas gostaria de fazer um bom trabalho nesta idade avançada, após muitos anos sem trabalhar. Se eu pudesse subtrair todos os anos em que não trabalhei, eu não seria tão velho assim, como os meus 81 anos indicam. Veja, 81 menos 25 são 56, e essa não é uma idade para não fazer nada. 

— E em que área você se concentraria? —, perguntou o apresentador. 

— Eu gostaria de fazer algo totalmente diferente, alguma coisa em que eu não fosse tão esperto.

De fato, uma mente brilhante. 


REFERÊNCIAS

RIZ RHAN’S ONE ON ONE. Entrevista com John Nash. https://www.youtube.com/watch?v=UiWBWwCa1E0. Acesso em: 10 jan. 2021.