O futuro é analógico

O constrangimento de quem fez carreira repetindo "digital" sem saber o que significa

O constrangimento de quem fez carreira repetindo “digital” sem saber o que significa

Você entendeu bem. O futuro é analógico.

Antes de estranhar, assista ao vídeo “Future Computers Will Be Radically Different“, do canal Veritasium. Nele, o físico Derek Muller mostra como startups estão desenvolvendo chips analógicos capazes de realizar 25 trilhões de operações por segundo consumindo três watts — enquanto sistemas digitais equivalentes gastam de 50 a 100 watts e custam milhares de dólares.

Não é ficção científica. É física aplicada, acontecendo agora. E isso deveria causar um certo constrangimento em muita gente — especialmente naqueles que passaram a última década proclamando a palavra “digital” como se fosse sinônimo de modernidade, inteligência e futuro. Porque se o futuro da computação de alto desempenho é analógico, o que sobra do discurso de quem fez do digital uma religião?

Para entender o tamanho do problema, é preciso primeiro entender o que essas palavras significam — algo que surpreendentemente poucos se dão ao trabalho de fazer. “Digital” quer dizer que a informação é representada por valores discretos: zeros e uns. É a lógica do interruptor — ligado ou desligado. “Analógico” quer dizer que a informação é representada por valores contínuos: uma tensão elétrica que varia, uma corrente que sobe e desce.

A música no vinil é analógica — o sulco do disco reproduz continuamente a forma da onda sonora. A música no Spotify é digital — a onda foi convertida em milhões de números binários. Cada abordagem tem vantagens e cada uma tem custos. Digital dá precisão e reprodutibilidade. Analógico dá velocidade e eficiência energética. Não existe uma que seja superior em tudo. Existe a que é mais adequada para cada tarefa.

A escolha digital dominou o último meio século por boas razões. A representação binária permitiu que uma foto fosse copiada sem perda, que um programa de computador rodasse de forma idêntica em milhões de máquinas, que a internet existisse. Isso é real, é importante e mudou a civilização. Mas o digital sempre teve um preço. Para somar dois números de oito bits, um computador digital precisa de cerca de 50 transistores. Para multiplicar dois números, precisa de mil, todos alternando entre zero e um. Cada alternância consome energia.

Agora compare: um circuito analógico multiplica dois números passando uma corrente por um resistor. A tensão resultante é o produto — direto, pela lei de Ohm. Sem transistores alternando, sem ciclos de clock, sem desperdício. A diferença não é sutil. É de ordens de grandeza.

E por que isso importa agora?

Porque a inteligência artificial mudou o jogo. Redes neurais artificiais — que estão por trás de tudo, do reconhecimento facial ao ChatGPT — fazem basicamente uma coisa: multiplicação de matrizes. Bilhões de vezes por segundo. É a operação mais repetida da computação moderna. E é exatamente a operação que o analógico faz melhor, mais rápido e mais barato. Além disso, redes neurais não precisam de precisão absoluta. Se a rede tem 96% ou 98% de confiança de que a imagem é um gato, o resultado prático é o mesmo — ainda é um gato. Aquele erro de 1% que sempre foi o calcanhar de Aquiles do analógico simplesmente deixou de ser relevante para a aplicação mais importante da computação contemporânea.

Agora, voltemos aos profetas. “Transformação digital” é um termo que dominou o vocabulário corporativo na última década como se designasse uma revolução inédita. Mas o transistor é de 1947. O microprocessador comercial, de 1971. O computador pessoal se popularizou nos anos 1980. Se “digital” é a representação binária da informação, então o mundo é digital há pelo menos 50 anos.

Quando alguém em 2024 fala em “transformação digital” como se fosse uma ruptura recente, está confundindo a própria descoberta tardia com a novidade do fenômeno. E construiu sobre essa confusão um ecossistema inteiro de palestras, consultorias e certificações que vendem a palavra “digital” como se ela, por si só, contivesse algum poder transformador. É o equivalente a alguém em 1995 anunciar que o futuro é a eletricidade.

O que está por vir é previsível. Quando a computação analógica e híbrida ganhar espaço — e os sinais técnicos já são claros —, as mesmas pessoas que fizeram carreira com o bordão “o mundo é digital” farão uma transição suave para o próximo rótulo. Dirão, sem constrangimento, que “sempre souberam que o futuro é híbrido” ou que “a verdadeira inovação é neuromórfica”. Não vão reconhecer que mudaram de posição, porque nunca tiveram de fato uma posição — tinham um slogan. E é aí que está a diferença entre quem entende um conceito e quem apenas repete uma palavra. Quem entende sabe quando o conceito se aplica e quando deixa de se aplicar. Quem repete só troca a palavra quando a plateia muda de humor.

A lição é simples. Tecnologias não são ideologias.

Digital não é bom nem ruim — é uma forma de representar informação, com vantagens em certos contextos e limitações em outros. Analógico também não é nem melhor nem pior — é outra forma, com outro perfil de custos e benefícios. Nosso próprio cérebro, aliás, é as duas coisas ao mesmo tempo: digital no sentido de que um neurônio dispara ou não dispara, e analógico no sentido de que o pensamento acontece de forma contínua, distribuída, simultânea.

Talvez a inteligência — natural ou artificial — não precise da pureza de um paradigma, mas da lucidez de saber quando usar cada um. E essa lucidez, convenhamos, não se adquire repetindo buzzwords em palestras. Adquire-se estudando o que as palavras significam antes de sair por aí dizendo que elas são o futuro.


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