A mentoria reflexiva

O relato resolve o problema apresentado. O modelo equipa o mentorado para resolver por conta própria.

Adoro dar mentoria. É uma das atividades que mais me realiza. Ao longo dos anos fui entendendo por quê: não é apenas o prazer de compartilhar experiência, é o prazer de pensar junto com alguém, de ver um raciocínio se abrir diante de uma perspectiva que a pessoa ainda não tinha considerado. Essa sensação de troca real, onde os dois saem diferentes do que entraram, é o que me faz considerar a mentoria uma das formas mais completas de transmissão de conhecimento que conheço.

E a palavra transmissão é o ponto de partida, porque ela carrega um guarda-chuva muito mais amplo do que parece.

Quando alguém diz que faz mentoria, essa palavra abriga significados muito diferentes dependendo de quem fala. Há mentorados que buscam uma coisa e recebem outra, mentores que acreditam estar oferecendo mais do que entregam, além de uma prática que poderia ser poderosa sendo reduzida a algo genérico. Vale, portanto, fazer a distinção com cuidado.

(1) As aulas transferem conteúdo estruturado. O professor organiza um corpo de conhecimento e o apresenta, com maior ou menor capacidade de torná-lo inteligível. O fluxo é predominantemente unidirecional. O critério de competência do professor é o domínio do conteúdo.

(2) O coaching faz o oposto: suspende deliberadamente qualquer transferência de conteúdo ou opinião. O coach usa perguntas para que o cliente acesse seus próprios recursos e chegue às suas próprias conclusões. Um coach competente em gestão de equipes não precisa ter gerido ninguém. 

(3) A mentoria técnica é qualificada pelo domínio prático num tema específico, independente de idade ou trajetória de vida mais ampla. Um jovem de 20 anos que ensina programação a um executivo de 50 e um jardineiro experiente que orienta um iniciante são o mesmo caso: o que se transfere é saber-fazer adquirido pela prática.

(4) A mentoria especializada opera em domínios profissionais, como métodos de venda, otimização logística ou gestão financeira, com forte proximidade à consultoria. O mentor especializado traz frameworks aplicados e capacidade de diagnóstico de situações concretas dentro de um escopo funcional bem delimitado.

Até aqui, todas essas modalidades são legítimas e têm seu lugar. Mas é quando chegamos à mentoria que envolve trajetória de vida, experiência corporativa e desenvolvimento de pessoas que a distinção mais importante aparece. Não há certo ou errado como na transmissão de conhecimento mais técnico. 

(5) A mentoria tradicional é o caso mais comum no mundo corporativo: um profissional experiente relata como enfrentou situações relevantes, explica o que fez e por quê, e oferece ao mentorado um repertório de referências práticas. Mas há um problema estrutural nessa modalidade que raramente é nomeado: o que se transfere é narrativa de experiência, e narrativa resolve o caso presente sem necessariamente equipar o mentorado para os próximos.

(6) A mentoria reflexiva parte dos mesmos ingredientes, mas os processa de forma qualitativamente diferente. Três fatores se combinam para produzi-la, e os três precisam estar presentes.

O primeiro fator é o tempo. Tempo de carreira, de função, de convivência com situações complexas. Tempo que permite ver ciclos se repetirem, consequências se desdobrarem, padrões emergirem. Um mentor com pouco tempo de trajetória simplesmente não teve exposição suficiente para ter algo robusto a transmitir. Mas tempo sozinho não basta.

O segundo fator é a experiência relevante. Não toda experiência qualifica, apenas aquela vivida em situações de consequência real, com pressão, com decisões difíceis e com resultados observáveis. É a qualidade das situações atravessadas, não apenas a quantidade de anos, que forma o repertório do mentor. 

Aqui os dois fatores se tornam inseparáveis: experiência relevante com tempo insuficiente não gera variedade de casos suficiente para que padrões se consolidem. Tempo abundante sem experiência relevante acumula anos sem substância. Os dois juntos formam a base necessária, mas ainda não suficiente.

O terceiro fator, e o mais raro, é a capacidade reflexiva. É o que transforma a base formada pelos dois primeiros em algo qualitativamente diferente. O mentor reflexivo não narra suas experiências como sequências autobiográficas centradas em si mesmo. Ele as examina como casos, extrai condições, identifica variáveis em jogo, mapeia ramificações possíveis. 

Ao longo do tempo, esse processo constrói modelos mentais condicionais: estruturas do tipo “dependendo de tal condição, os caminhos possíveis são estes, com estas implicações.” É exatamente isso que ele transfere ao mentorado. Não uma resposta, mas uma estrutura para pensar.

Essa é a diferença que muda o nível lógico inteiro. A mentoria tradicional transmite experiência como narrativa. A mentoria reflexiva transmite experiência como modelo. O relato resolve o problema apresentado. O modelo equipa o mentorado para resolver os próximos por conta própria. 

É nesse último modelo que me reconheço, e é ele que gosto de praticar com os meus mentorados. 

Mas há algo que percebi recentemente e que me dá um prazer particular: já fiz o trabalho de refletir sobre a minha experiência acumulada e transformá-la em matéria-prima para a mentoria. Esse trabalho está feito. 

O que agora me fascina é a reflexão sobre a própria mentoria. Sobre o que a torna eficaz, sobre como ela se distingue de outras formas de transmissão, sobre a estrutura do processo em si. Reflito agora não sobre o que vivi, mas sobre o que faço quando mentoro. Essa camada adicional de reflexão, sobre a prática e não apenas sobre a experiência, é onde sinto que a mentoria pode chegar ao seu ponto mais alto.


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Fundada por Fernando Barrichelo — 30 anos como executivo C-level (Itaú, Cielo, Aon), professor da FGV, Poli-USP, MBA Carnegie Mellon, autor de Estratégia de Decisões e Reasoning Skills.