Entender como ela “pensa” é importante
Os modelos atuais de inteligência artificial impressionam porque falam bem, acertam muito e respondem rápido. Isso cria a sensação de que estão “pensando”. O problema é que essa aparência engana.
Como diz o artigo do WSJ (We Now Know How AI ‘Thinks’—and It’s Barely Thinking at All), o que essas IAs fazem não é pensar no sentido humano, mas aplicar, em altíssima velocidade, um número gigantesco de atalhos aprendidos a partir de dados. Entender essa diferença é essencial para usar a tecnologia com inteligência — e sem ilusões.
Quando humanos pensam, eles constroem modelos do mundo. Esses modelos são simplificações causais da realidade: noções de como as coisas funcionam, do tipo “se isso acontece, aquilo tende a acontecer”, “se algo muda, posso me adaptar”. Não é necessário ter visto todas as situações possíveis. Basta compreender princípios gerais. É isso que permite improvisar, lidar com exceções e aprender com poucos exemplos.
As IAs atuais funcionam de outro modo. Em vez de modelos causais compactos, elas acumulam enormes quantidades de heurísticas. Heurísticas, nesse contexto, são regras práticas do tipo “em situações parecidas com esta, essa resposta costuma funcionar”. Não há compreensão do porquê. Há apenas correlação refinada. Quanto mais dados, mais atalhos possíveis. Quanto mais atalhos, maior a chance de acertar — desde que o contexto seja semelhante ao que já foi visto.
Um experimento citado no artigo ilustra isso de forma clara. Pesquisadores treinaram uma IA com milhões de instruções de navegação em Manhattan. Se ela tivesse construído um modelo real da cidade, seu “mapa mental” deveria se parecer com um mapa de verdade. Mas não foi o que aconteceu. O mapa interno da IA era incoerente, com ruas atravessando parques e trajetos impossíveis. Mesmo assim, ela acertava cerca de 99% das rotas solicitadas. O motivo é simples: ela não tinha um mapa. Tinha um vasto conjunto de regras locais suficientes para funcionar na maioria dos casos.
Esse tipo de sistema funciona muito bem em condições normais, mas é frágil quando algo muda. No mesmo experimento, ao bloquear apenas 1% das ruas, o desempenho da IA despencou. Um humano, mesmo sem conhecer todas as rotas, se adaptaria facilmente. A diferença está na flexibilidade. Pessoas erram detalhes, mas compreendem estruturas. A IA acerta detalhes, mas não compreende estruturas.
Isso explica por que os modelos atuais precisam ser tão grandes e consumir tantos dados. Como não conseguem comprimir o mundo em princípios gerais, precisam memorizar milhões de exceções. Também explica por que diferentes empresas acabam com sistemas muito parecidos e com desempenho que parece estar se estabilizando: todas estão explorando variações da mesma estratégia baseada em escala e heurísticas.
A interpretação correta, portanto, não é que a IA “pensa mal” ou “pensa diferente”. É que ela não pensa no sentido humano. Ela executa uma forma extremamente sofisticada de reconhecimento de padrões. Isso a torna uma ferramenta poderosa para produtividade, síntese, apoio operacional e tarefas bem delimitadas. Mas também significa que ela não deve ser tratada como uma mente autônoma, um agente confiável em contextos novos ou um substituto de julgamento humano.
A principal conclusão é simples e importante: confundir heurística em larga escala com entendimento real gera expectativas erradas. A inteligência artificial atual não é uma versão imatura da mente humana. É outra coisa. Quanto mais cedo aceitarmos isso, melhor saberemos onde ela realmente ajuda — e onde confiar nela é um erro.
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Fundada por Fernando Barrichelo: 30 anos como executivo C-level (ex-COO Itaú, Cielo, Aon), professor da FGV em tomada de decisão, engenheiro Poli-USP, MBA Carnegie Mellon, doutorando FGV e autor dos livros Estratégia de Decisões e Reasoning Skills.