Podemos ser produtivos da melhor forma possível
Somos angustiados pela necessidade de aproveitar o tempo. Eu também; você também. O tempo parece sempre escapar e, ao final do dia, surge a sensação de que poderíamos ter feito mais. Mas essa angústia não surge apenas do medo de desperdiçá-lo, e sim da obrigação de torná-lo produtivo, de extrair algo útil de cada instante.
Até mesmo nos momentos mais banais essa inquietação se manifesta. Lavar louça é chato. Parece tempo mal utilizado, um intervalo sem propósito claro. A questão, então, não é apenas como executar a tarefa, mas como preenchê-la de significado. Se não há uma máquina para fazer isso por nós, restam algumas estratégias para lidar com os minutos que se esvaem entre a espuma e a água corrente.
A primeira delas vem das teorias do mindfulness. Segundo essa abordagem, o ideal é estar presente no momento: sentir a temperatura da água, observar as bolhas de sabão, perceber o contato dos pratos com as mãos. Seria uma maneira de transformar um ato rotineiro em uma experiência sensorial plena. Mas quantas pessoas realmente conseguem fazer isso? A proposta faz sentido na teoria, mas, na prática, a mente dificilmente obedece. Os pensamentos escapam, desviam para as preocupações do dia, para tarefas pendentes, para qualquer outra coisa que não seja o prato que estamos esfregando. O esforço de se manter atento pode tornar a atividade ainda mais cansativa.
Outra estratégia comum é tentar tornar esse tempo mais produtivo ouvindo um podcast. Se já estamos presos a essa obrigação, por que não aproveitá-la para aprender algo novo? Parece a solução perfeita: lavar louça e, ao mesmo tempo, se educar. Mas há um problema nisso. Será que realmente conseguimos prestar atenção ao que o narrador diz? Ou apenas nos iludimos com a ideia de que estamos absorvendo conhecimento? Se o podcast fosse mesmo relevante, talvez merecesse ser ouvido com atenção total, sem distrações. Muitas vezes, ele se torna apenas um ruído de fundo, um truque mental para nos fazer sentir produtivos, mesmo quando não estamos.
Há ainda uma terceira possibilidade: simplesmente deixar os pensamentos fluírem. Enquanto lavamos a louça, sem a obrigação de focar na experiência sensorial nem de absorver informações externas, a mente segue seu próprio curso. O pensamento faz zig-zag, conecta pontos aparentemente distantes, encontra soluções para problemas que estavam em segundo plano. E, quando uma ideia boa aparece, há a oportunidade de elaborá-la, organizá-la e transformá-la em algo concreto. Paradoxalmente, é no momento em que não tentamos ser produtivos que acabamos, sem querer, criando algo de valor.
O dilema não é apenas lavar a louça, mas a obsessão por tornar cada instante útil. A busca incessante por produtividade pode nos afastar do melhor uso do tempo. Nem todo momento precisa ser otimizado; alguns podem simplesmente existir. Mas, muitas vezes, são justamente nesses espaços livres, nesses intervalos sem propósito definido, que as ideias mais valiosas surgem. E quando surgem, percebemos que fomos produtivos da melhor forma possível.