Devemos cultivar os maluquinhos lúcidos

Com sutileza, elas fazem o mundo se mover

Com sutileza, elas fazem o mundo se mover.

Das muitas aventuras literárias que já tive, alguns personagens me impactaram. Dom Quixote, Holden Caulfield, Otto Lidenbrock, entre outros, todos compartilham uma característica que gosto de chamar de “maluquice lúcida”. Cada um deles, à sua maneira, desafia a lógica convencional e nos faz enxergar o mundo com novos olhos.

Dom Quixote, o cavaleiro de Cervantes, lutava contra moinhos que acreditava serem gigantes. Mas sua “loucura” não era falta de razão, e sim um compromisso com uma visão idealista do mundo contra a superficialidade da sociedade.

Holden Caulfield, de “O Apanhador no Campo de Centeio”, é um adolescente que via através das lentes adultas. Sua “loucura” se manifestava na rebeldia para preservar a inocência. Rotulado como problemático, Holden possuia uma lucidez tocante ao perceber as falsidades ao seu redor.

O professor Otto Lidenbrock, de “Viagem ao Centro da Terra”, tinha uma obsessão pela exploração científica a ponto de embarcar em uma jornada perigosa ao centro da Terra. Considerado insano, Otto via nisso a oportunidade de expandir os limites do conhecimento com coragem e convicção.

Apesar de “loucuras” particulares, eles tinham um ponto em comum: um toque de bondade, inocência e generosidade que permeiavam suas ações e intenções. Quixote queria defender os fracos, Holden era uma eterna criança, e Otto cuidava do seu sobrinho como próprio filho.

Se você pensa que essas pessoas só existem nos contos de ficção, olhe ao seu redor. Esses personagens nos fazem perceber que a vida é cheia de recortes de maluquices lúcidas nas pessoas do cotidiano. São essas pessoas, com sua combinação de certa excentricidade (maluquice), percepção aguçada (lucidez) e bondade genuína, que tornam o mundo um lugar mais interessante.

Infelizmente, elas são raras, mas existem. Com sutileza, elas fazem o mundo se mover. Pense em um colega de trabalho que sempre parece ter ideias fora do comum. Às vezes, ele propõe soluções que parecem impraticáveis ou desajustadas, mas que, quando observadas de perto, revelam uma lógica interna brilhante. Ou talvez se lembre de um amigo de infância, aquele que sempre via o mundo de uma maneira única, transformando situações banais em aventuras memoráveis com sua criatividade e espontaneidade.

Devemos cultivar esses “maluquinhos lúcidos” em nossas vidas. Eles são as pessoas que nos desafiam a ver além do óbvio, a pensar de maneiras novas e a não ter medo de ser diferentes. E se você encontrar uma moça assim, case com ela. Se encontrar um chefe assim, nunca peça demissão.

Pessoas assim são fascinantes, pois nunca enjoamos delas. Ora são malucas, ora são lúcidas, e essa alternância mantém a vida vibrante. Quem diz que o equilíbrio é o ideal está enganado, pois o equilibrado é morno, sem os extremos da loucura ou da lucidez. O verdadeiro encanto dos “malucos lúcidos” está em sua capacidade de alternar entre esses estados, entrando no momento certo com a atitude certa. Eles compreendem que a vida não é sobre manter uma linha reta, mas sobre dançar generosamente entre o caos e a ordem, o absurdo e a razão.